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Neptuno em discurso directo

Por certo já leram alguma coisa sobre o meu irmão Hades, também conhecido pelo nome de Plutão.
Creio até que antes mim ele já se fez aparatosamente anunciar nas páginas deste site. Mas Hades, este meu irmão "escuro", lá porque é o deus da morte, ele
acha que tem o destino dos humanos na mão. Mas
se me permitirem eu vou mostrar-vos algumas das complicações entre nós, os deuses, que são um pouco à semelhança das vossas entre vocês, humanos.

Apercebi-me que entre os humanos, eu, Neptuno, sou visto como algo a evitar. Mas de entre vocês quem me tenta evitar são aqueles já mais avisados. Porque os outros, os menos avisados, esses coitados "caem que nem patinhos". Eu tenho a má fama de enganar os humanos. A maioria de vocês acusa-me de eu ter o mau costume de lançar um véu sobre
as vossas aspirações mais rasteiras, criando uma imagem de perfeição no que afinal não passa de uma miragem. Mas eu repito. Só assim me vêm aqueles de vocês menos avisados. No vosso meio
há quem também me chame de "Ilusionista", "Mestre do Disfarce", e até já me puseram um "rótulo na testa" a dizer "Nevoeiro". Mas informo que não trabalho nem nunca trabalhei para essa coisa a que vocês chamam de meteorologia. Por isso nada sei sobre nevoeiros no registo que os humanos os entendem. E quanto a ser "Ilusionista"... bem,
eu nem cartola tenho para poder "tirar coelhos"...!? Permitam que vos diga que apenas represento uma imensidão de possibilidades. Eu, Neptuno para os romanos, e Poseidon para os gregos, sou como um gigantesco oceano que proporciona à vossa alma
um ambiente simbiótico com o Espírito Universal. Mas as profundezas das águas onde eu habito são um abismo que engole a vossa personalidade, dissolvendo todos os vossos sonhos cor-de-rosa
e todas as vossas aspirações baseadas em "paraísos artificiais"... e outras ilusões mais.
 

Mas o que são "paraísos artificiais"?

 

Para começar a lista e apenas como exemplo, posso já mencionar um dos frequentes enganos, senão
o maior dos enganos, no qual vocês caem para procurarem ser "felizes". Porque para a maioria de vocês essa procura é baseada e apoiada em algo
ou alguém que não vão poder controlar, nem garantir que ali permaneça sempre ao vosso lado para que vivam tranquilos, usufruindo do fácil alimento, em todos os sentidos, para tapar as falhas da vossa falta de autoestima e carência emocional. Quem se apoia em "bengalas" corre o risco de estas se partirem ou desaparecerem, deixando desamparado quem desse apoio dependia. Isto é cruel, dirão vocês. Mas de acordo com a percepção que eu, Neptuno, tenho da vida e do Grande Universo, afirmo que passar pela experiência da desilusão é uma lição altamente pedagógica
e correctiva, porque ensina que a realidade que muitos de vocês procuram para serem felizes está
no vosso interno pessoal e não fora. Por conseguinte, eu não sou cruel. Cruel é o meu irmão Plutão. Porque quando chega o momento de dar um fim a algum "paraíso artificial" criado por vocês mesmos, o meu querido irmão Plutão é implacável
e não tem contemplações. E o que for para terminar ele termina. Mas o mais engraçado é que depois
de se dar a ocorrência da finalização eu é que levo com as culpas, porque sou imediatamente acusado de ter feito desaparecer esfumando o que algum humano saboreava ingenuamente. Mas não.
Não aceito rótulos desta natureza. Dos cinco sentidos que os humanos dispõem há um que é
o sabor amargo. E faz parte da experiência humana passar por "amargos de boca" em termos simbólicos, mas vividos de um modo muito prático
e literal. Desta maneira, quem se deixou cair no logro das mistificações das coisas terrenas, tarde ou cedo o seu diáfano pequeno universo esfumar-se-á no nevoeiro da ilusão em que mergulhou. Mas isso não é nem nunca foi da minha responsabilidade. Um outro dos atributos com que me classificam é o de ter inclinação para as artes. Mas deixem-me dizer-lhes que nesta vertente vocês, humanos, ganham-me aos pontos. Porquê? Porque muitas vezes vocês são muito criativos, não há dúvida, mas no que toca
a gastarem energia desenfreadamente com criações mentais, muitas delas contra vocês mesmos. Vocês estão sempre a ignorar o facto (não o fato) que a vossa actividade mental é o principal motor que põe em marcha, muitas vezes acelerada, materializando
o que a vossa imaginação criou. O problema é que
a vossa fértil imaginação funciona para alguns,
para não dizer muitos, desconectada de um estado de serenidade mental, actuando à revelia da vossa vontade do que gostariam que acontecesse. E assim lá vem as queixas de que a vida é ingata, perdão, ingrata, porque volta e meia vocês dizem que estão em "maré de azar". Mas no "filme da vossa vida" são vocês que escrevem (imaginam) o guião (a agenda das experiências que estão a viver), desempenham
o papel de actores, muitas vezes sendo este papel
o de "bons ou maus da fita". E para muitos de vocês tudo isto é feito em modo automático e comandado pela vossa faceta inconsciente. Porque sendo inconsciente não há controle algum sobre o que quer que seja. O engraçado é que mesmo sendo assim, muitos de vocês ainda conseguem afirmar de uma maneira bem altiva, que são donos da vossa vida
ou destino como muitos lhe chamam. O psicólogo suíço Carl Gustav Jung deixou bem claro dizendo que "o que não aflora à consciência humana aparece-lhe como destino". Esta frase é um sério aviso para todos vocês que possam estar a viver meio adormecidos e ausentes de certos problemas arrastados no tempo, num eterno adiar na procura de soluções como quem vai "atirando o lixo para debaixo do tapete". Debaixo do tapete o lixo não
se vê, mas lá continua até surgir uma enxurrada qualquer que o irá arrastar, levando consigo um
sem número de expectativas baseadas em ilusões desestruturadas. Desculpem-me a expressão, mas
de todos estes imbróglios humanos, eu, Neptuno, "lavo daí as minhas mãos!"

E se tentássemos ver a "coisa" por outro prisma?

Procurando maneiras para deixar de lado o velho hábito de "remar contra a maré", os brasileiros têm uma espetacular frase que diz assim: "Deixa fluir!" Mas deixa fluir como? De que forma poderemos deixar fluir sem cair no erro do abandono ou da negligência? Vocês, humanos, têm aqui um desafio no qual eu, Neptuno, não iria querer estar envolvido. Mas "feitas as contas" este é um problema vosso. Afinal quem é que aqui representa o papel de mediador entre o mundo material e o espiritual?
Eu, Neptuno, estou incumbido pelo meu irmão Júpiter (Zeus), para vos mostrar que a vida é mais vasta e cheia de possibilidades muito para além
do que as vossas "vistas físicas" conseguem ver.
É por isto que que quando me posiciono de certas maneiras no Mapa de Nascimento de algum de vocês, desempenho um papel por vezes pouco simpático, porque logo desde a infância obrigo aquele humano ao treino de viver na precariedade no que toca ao amparo afectivo e emocional, mergulhando-o no sentimento de que não é

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protegido o suficiente. Ora isto não se faz, dirão vocês. Mas para que a Alma cresça e evolua,
a personalidade tem de aprender a vencer obstáculos e a ultrapassar desafios. Lindo de se dizer, mas difícil de se viver. Eu, Neptuno, sei de tudo isto. Mas lembrem-se de um parente meu, o meu papá Saturno. Ele diz que nenhum de vocês alcança sabedoria sem esforço, treino e disciplina. Com
estas afirmações cá "por cima" vocês até poderão comentar que nós, os deuses, nos unimos todos
para vos tramar. Mas não é bem assim. O planeta Terra atingiu um estado de caos e negatividade tal,
e está presentemente apinhado de malfeitores
de toda a espécie, que vivem apenas pela satisfação da sua ambiciosa ganância, à margem do excelente trabalho de alguns milhões de humanos que tudo fazem para elevar a vibração do planeta o mais extensamente possível. E nós, os deuses, não podemos ignorar o esforço destas boas almas.
O planeta Terra também é um ser vivo. E vocês, humanos, têm de aprender a respeitá-lo. Em termos mundiais vocês têm de aprender a desenvolver mais, mas mesmo muito mais, a capacidade de cooperação convosco mesmos, individualmente,
e com o vosso semelhante, colectivamente. Solidariedade e altruísmo, empatia com o sofrimento alheio, tudo isto são atributos que vos ajudam a ser menos egoístas. Enquanto não atingirem este básico grau de consciência o vosso mundo será um terreno agreste, desumano e repleto de "quintinhas", em que cada um procura somente defender a sua alface
ou molhinho de coentros, deixando as couves alheias à mercê dos predadores gananciosos, que não se importam de deixar atrás de si um extenso rasto de destruição com consequências desastrosas.

E como é que eu funciono nos mapas astrológicos de vocês, terráqueos, nessa vossa escola da vida?

 

Para começar... não facilito. O meu irmão Plutão vive nas profundezas subterrâneas, e quando vem à superfície enverga o "Elmo da Invisibilidade". Sem ser visto ou percebido ele faz vir ao de cimo tudo quanto já não tem condição alguma para perdurar no tempo. Eu, Neptuno, vivo nas profundezas dos oceanos agitando as águas do inconsciente colectivo, mas também as águas do inconsciente pessoal na vida particular de cada um de vocês.
E o que é que isso significa? Significa que em ambos os departamentos da vida humana dissolvo (faço desmoronar) toda e qualquer estrutura que já deixou de merecer esse nome de estrutura. E vocês acabam por ver tudo a ir embora nada podendo fazer para
o evitar. De uma outra forma e quando se trata
de actuar na vossa vida pessoal, uma das minhas mais predilectas e estratégicas posições é quando apareço ligado com a Lua de nascimento no mapa astrológico de alguém. Como vocês já devem saber,
no mapa de nascimento de vocês, humanos, a Lua
é um dos mais fortes significadores da figura materna. Se eu, Neptuno, apareço ligado com a Lua no momento de nascimento, a vida desse humano contemplado com aquela minha douta presença,
irá ser desafiadora no que respeita à convivência com a sua querida mãe. A mãe desse humano até pode vir a ter um papel muito importante na vida dele, preocupando-se em fazer o que estiver ao seu alcance para ajudar o seu "rebento". Mas o seu querido "rebento" terá tendência para interpretar
as atitudes de sua mãe de uma maneira um pouco (por vezes muito) diferente, sentindo-se regularmente assaltado pela insatisfação de que necessita de ainda mais. E em alguns de vocês
o "ainda mais" é mais e mais, a um ponto tal que até parece uma taça sem fundo, que por mais que se lá ponha o que quer que seja nunca será suficiente. Mas em termos gerais a comunicação não é clara.

 

Faz lembrar o "síndrome do Calimero", o pintaínho que ainda matém na cabeça parte da casca do
ovo de onde saiu, e que passa o tempo todo queixando-se e reclamando de tudo. E reparem
que a parte da casca que ele ainda mantém não
está em outra parte do seu corpo senão na cabeça, como símbolo da parte do pintaínho que se recusa em se libertar, em analogia à mesma parte nos humanos, a cabeça (entendimento), que ainda
possa estar a viver agarrada à saudosa protecção
do útero materno, de onde psicológica e literalmente se recusa a saír. Existem muitos tipos
de cortes de cordão umbilical pela vida fora.
Nestes casos, eu, Neptuno, instalo uma impressão de vazio e desamparo, para que aquela alma faça
o treino de aprender a ser mais auto-suficiente, aprendendo também a expressar-se de uma forma menos absorvente e carente (Lua), sendo mais radiosa e calorosa consigo mesma e com os outros (Sol). Porém, mais uma vez deve ser dito que isto
é fácil de se dizer mas difícil de se fazer. Mas Karma
é Karma, (Samskaras - acção/consequência), formatos mentais arrastados vida após vida
e transformados em automatismos, que ao expressarem-se apenas o fazem do modo em como foram construidos em um passado longínquo.

Como vocês devem entender, o espaço para nós,
os deuses, nos expressarmos, neste site tem limites. Eu, Neptuno, acho que aqui temos a "pata" do meu pai, Saturno. Ele é que é o Senhor das regras e dos limites. Confesso que nesses departamentos,
eu, Neptuno, não sou muito bom. Como é que
eu poderia espalhar e dissolver, arrastar e fazer desaparcer, fazendo isso numa atitude de constrangimento? Não! Não poderia. Mas eu, Neptuno, entendo que tudo tem um limite.
Porém, estabelecer limites não é a minha função.
E mesmo com esta minha dificuldade vejo-me forçado a ter de ficar por aqui, contando que em próxima oportunidade eu, Neptuno, tenha
a possibilidade de lhes falar um pouco mais sobre
as minhas "habilidades" circenses como equilibrista e mágico. Sim! Sou isso tudo também. Um até breve, ou melhor, um até sempre, porque tal como o meu irmão Plutão, eu estou sempre de olho em vocês. Entretanto, envio beijinhos aos vossos bichanos, porque esse gatinhos são para mim uma preciosa ajuda, colaborando na limpeza do ambiente que vocês estão sempre a poluir. Desculpem-me porque esta não foi uma despedida lá muito simpática.
Mas a culpa não é minha nem dos gatinhos.

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OS CONTRASTES DE NEPTUNO

Saramago, Janeiro 2023

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